Woody Allen

Uma breve história sobre a rotina

Segunda-feira, quatorze de julho de 2014, seis e meia da manhã.

 

Acordo cansado. Há meses que sofro de insônia porque o antidepressivo desregulou o meu sono. O remédio também diminui a minha libido e aumenta o apetite, por isso estou dez quilos mais gordo – acrescenta-se aí a vida sedentária que levo. Estou com sobrepeso e aumentando cada vez mais, rumo à obesidade e ao infinito e além – eu sempre quis escrever isso. Minhas pernas e meu peito estão doendo, pois ontem decidi começar a fazer exercícios físicos, agachamento e apoio. Três séries de dez. Como dói. Hoje, depois do expediente, farei uma caminhada de uma hora na orla do Guaíba. Não vá pensar que resolvi empreender essa cruzada porque me preocupo com a estética do meu corpo, estou pouco me fodendo pra aparência, o problema é essa indisposição, essa moleza no corpo, e o pequeno (por enquanto) incômodo que tem sido abaixar-me para amarrar os tênis, a barriga atrapalha. Que diabo. Sorte que possuo braços compridos, pratiquei muita natação na adolescência, o que me rendeu no colégio os apelidos de Braço, Macaco, Gorila, Perna-curta, Mentira e outros que esqueci. Podia ter investido numa promissora carreira de boxeador. Mas não fiz.

Ultimamente, a umidade tem sido outro incômodo aqui em casa. As roupas não secam e as paredes suam. Viva o inverno Portoalegrense! Olho pela janela do meu quarto e vejo a lua cheia em pleno dia.. Mais abaixo, a rua, coberta pela neblina. À tarde vai fazer calor, diz a voz que sai da televisão.

Beber água, cagar, tomar banho, escovar os dentes, vestir-se e ganhar a rua. Ganho a rua, que já não é mais tão deserta assim, adultos encaminham-se ao trabalho e crianças ao colégio, com suas mochilas de super-heróis e princesas americanas – colonialismo filha da puta. Faço parte do primeiro grupo, rumo à labuta, à guerra, trabalhadores do mundo, uni-vos! Não. Na casa à frente, apenas as crianças saem, sob gritos e insultos selvagens da avó: anda Tainá! Vamo Yago! Cala a boca Yuri! A vó é uma negra colossalmente gorda que deve ter muita dificuldade para amarrar os sapatos – deve ser por isso que sempre a vejo de chinelos. Nessa casa, os adultos não saem pra trabalhar, porque trabalham ali mesmo, vendendo droga. O pico da clientela é à madrugada. Eu fico escorado na janela, insone, observando a rua, e vejo eles chegarem e pararem em frente à casa, uns de moto, dão uma buzinadinha e esperam; outros a pé, assobiam, batem palmas, gritam, mandam mensagem ou ligam do celular, em seguida aparece um negãozinho, sempre de boné, discretamente entrega algo pro sujeito que lhe entrega outro algo, discretamente, e cada um toma o seu rumo.

O meu ônibus, segundo a tabela de horários, vem de dez em dez minutos, porém, na prática, vem de meia em meia hora e às vezes demora mais ainda. Dá nos nervos.

Após três cigarros e intermináveis cinquenta minutos de espera, surge o para-choque do ônibus na esquina. Lotado. Hehe. Que merda. Entro sem dar bom dia. Todos os passageiros possuem aquele olhar cadavérico de quem vive nessa rotina de trabalho-casa-trabalho há sabe-se lá quantos anos. O tédio estampado nos rostos. Na parada seguinte, entram mais uns oito passageiros e parece que o ônibus vai explodir, mas não explode não. O cobrador, sensato, avisa ao motorista que não cabe mais ninguém ali dentro. O motorista, teimoso, em vez de passar reto pela próxima parada, onde se encontram cerca de quinze cidadãos assalariados que precisam pegar essa condução para chegar pontualmente em seus indesejáveis empregos subalternos, pára e abre as portas do inferno. Do fundo do ônibus uma senhora obesa grita com uma voz estridente: não cabe mais ninguém nessa merda! tu tá doido, hein?! O motorista finge que não é com ele. Cabe sim. Ele abre as portas traseiras e manda o pessoal entrar por atrás. As pessoas vão empurrando-se, acotovelando-se, esmagando-se. Um velho vomita no meio do corredor, impregnando o ar. Sinto uma enorme vontade de morrer, mas me control. Ademais, não há nenhum objeto cortante ou arma de fogo ao alcance. Depois dessa, o motorista birrento, ao que parece, conformou-se com o fato de que a coisa parece uma lata de atum. Chegamos ao Terminal Triângulo na Assis Brasil. Os passageiros vão saindo, saindo e saindo sem parar, parece que estão sendo vomitados pela porta do ônibus. Desço e já me encaminho à fila do T1. O Terminal Triângulo é chamado assim por possuir o formato da figura geométrica que lhe da nome. Há filas pra tudo que é lado, algumas fazem curvas, dão voltas, cruzam com outras. Não sei como as pessoas se organizam nessa suruba, mas se organizam. O T1, comparado ao ônibus que peguei antes, é um paraíso, raramente atrasa, a fila dificilmente é enorme e quase sempre consigo um lugar pra sentar. Hoje não foi diferente. Aqui há dois grupos de pessoas: os trabalhadores e os estudantes da PUCRS, para diferenciá-los basta observar os olhares. Os trabalhadores possuem aquele mesmo olhar bovino de enfado e resignação do ônibus anterior. Já os estudantes, estes ainda conservam um brilho no olhar, vida, não conhecem a realidade da rotina maçante de ter de aturar por nove horas todo o santo dia o mesmo chefe, os mesmos colegas, a mesma comida do mesmo restaurante com os mesmos garçons e o mesmo café da mesma cafeteira e as mesmas piadas e os mesmos comentários a respeito do tempo, futebol, política, férias, viagem, alguém me dá um tiro pelo amor de Deus e depois chegar em casa, o mesmo cônjuge, filhos, janta, Jornal Nacional, Novela, um episódio de uma série idiota qualquer com uma dublagem porca e enfim o merecido descanso, pra no dia seguinte fazer tudo de novo e de novo e de novo, até, por fim, morrer, o tal merecido descanso. É como viver num eterno looping. Por isso tem gente que enlouquece. Por isso tem gente que leva décadas pra se formar na faculdade, vive numa  adolescência sem fim, sendo sustentado pelos pais. Não se trata apenas de medo da responsabilidade de levar uma vida adulta, é o medo de virar mais um zumbi de olhar vazio e inexpressivo caminhando sem motivo em direção a lugar nenhum. Quarenta minutos depois, desço em frente ao meu trabalho. Trabalhei, voltei pra casa, jantei, assisti Manhattam do Woody Allen e dormi no meio do filme.

No dia seguinte, foi quase tudo igual.

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