terror

Requiem para um monstro

Ninguém sabe dizer como e quando aquilo apareceu. A princípio ninguém o notou, até que começou a crescer. E quando cresceu o suficiente para ser notado, foi trazido pra dentro de casa e colocado na sala, em frente à televisão.

E por que agora todos estão mortos e seus corpos dilacerados, é difícil explicar. Mas todos quem? Daqui a pouco vocês ficam sabendo. Quando penso em todas estas coisas, alguns pontos negros da minha memória iluminam-se e em seguida voltam à escuridão. Mas vamos à narrativa do que me lembro, passo a contar a partir da data, também imprecisa, em que minha mulher encontrou-o entre os arbustos no jardim. Ele tinha aparência excêntrica e inofensiva, a princípio, a não ser por uma pequena cauda que saída de sua traseira, com uma lâmina afiada na ponta, de onde eventualmente pingava um líquido marrom pegajoso – líquido esse que, é importante dizer, só eu percebia. A mulher da casa disse que aquilo era muito lindo e ficaria perfeito na sala. As crianças agitaram-se, fizeram perguntas: de onde veio, quem trouxe, o papai noel, a fada do dente, o coelhinho, extraterrestres, duendes, bruxas, cegonhas, uma lista enorme de possíveis origens e procedências do objeto que surgira misteriosamente no quintal. Outra coisa inexplicável foi o que em seguida acometeu a minha esposa, feito um raio: uma mania de limpeza e organização. Num ímpeto, tínhamos de alterar imediatamente a disposição dos móveis, varrer, encerar, limpar, polir, comprar um lustre a ser instalado no centro da sala e plantar violetas no jardim. Passada uma semana desde a chegada dele, todas arrumações e transformações e limpezas na casa já haviam sido concluídas. As paredes internas foram pintadas de verde claro e as externas de verde escuro. E o quadro com o retrato de Mozart, que antes ficava no nosso quarto, mudou de lugar, foi parar na sala, pendurado na parede, acima do objeto desconhecido.

Há anos nada de extraordinário acontecia, a vida afundara numa monotonia típica dos casais, que vez que outra era quebrada por aniversários, formaturas, casamentos, viagens em temporada de férias… eventos que a mim já eram rotina, mas em minha esposa desencadeavam uma espécie de ascensão instantânea da vaidade. Oportunidades pra ela comprar um vestido, sapato, brincos, mudar o cabelo, as unhas, experimentar uma maquiagem diferente e eventualmente receber elogios – o que eu já não fazia, naturalmente.

Não tardou os vizinhos souberam da novidade e começaram a visitar-nos com frequência, para admirar a coisa do jardim. A vida social agitou-se. Nessas visitas comentava-se muito sobre a vida alheia. Assim, sabíamos que o filho dos Souza não estava fazendo intercâmbio na Nova Zelândia coisa nenhuma, mas internado numa clínica de recuperação devido a problemas com cocaína. Noutra semana chegava a informação de que os problemas eram com crack. E quando os Souza pararam de sair de casa e nem sequer abriam as janelas, circulavam boatos de que o filho enforcara-se com o cadarço dos tênis.

Odeio boatos, fofocas e intrigas, quero distância disso, mas as visitas e fofocas tornaram-se diárias. Chimarrão e fofoca, fofoca e chimarrão. Eu me fechava no quarto e ficava escutando música clássica bem alto, é o tipo de coisa que me acalma. Ouvia Mozart, meu preferido, também Bach, Bizet, Chopin, Stravinsky. Um dia, eu estava de olhos fechados, sorvendo a Marcha Slava do Tchaikowsky, outro compositor que me fascina, quando no momento em que os tambores começam a rufar e eu me empolgo e levanto e começo andar pra lá e pra cá e a balançar os braços de um jeito estranho que não consigo explicar com palavras, a minha esposa, acompanhada de uma comitiva de vizinhos curiosos e fofoqueiros, adentra o quarto mostrando o cômodo e os móveis e fazendo infinitas observações e falando dos planos para o futuro e viagens e vejam só como somos lindos e felizes, oh! Parei de voltar pra casa depois do trabalho. Eu ia pro bar e só retornava tarde da noite, a pé, bêbado, amaldiçoando o mundo. O álcool, essa coisa eufórica e maldita, é capaz de arruinar um ser humano, e a lei permite, vejam só que bonito. Tornei-me pai e marido ausente, uma pessoa fria, amarga e rancorosa. Não cumprimentava os vizinhos e ainda lhes fechava a cara ao cruzar com eles na rua. Quando minha esposa perguntava o que eu tinha, por que aquela brusca mudança em meu comportamento, eu a ignorava e sentia prazer em vê-la atordoada. O mesmo eu fazia com meus filhos. Que coisa boa é apreciar o sofrimento de quem a gente ama.

No trabalho, não me interessava pelas conversas alheias, parecia um alienígena na companhia dos outros. Enquanto tagarelavam a respeito do tempo, futebol, política… eu matinha o olhar fixo em alguma coisa qualquer e punha-me introspectivo a pensar em atrocidades. Passei a almoçar sozinho. Agora eu tinha nojo dos outros, afinal, eles são o inferno, conforme escreveu aquele filósofo mais feio que a feiura.

Odeio filosofia.

Um dia, subitamente, algo desabou sobre o meu inconsciente e todo aquele ódio transformou-se em medo. Sonhei com o objeto na sala pulsando, ganhando vida, criando olhos, dentes, pernas, garras e caminhando sorrateiro pelos corredores, apenas o rubro dos seus olhos cintilando na penumbra da madrugada, abrindo uma a uma as portas até encontrar-nos em sono profundo. Acordei suando e corri até a sala a fim de olhar a coisa, e ela crescia. Juro. Voltei correndo pra cama e de lá não consegui sair naquela manhã de inverno. Ninguém questionou. Cheguei depois do almoço no trabalho e inventei que minha filha ficara doente. Ninguém questionou. Qualquer um que me olhasse causava uma inexplicável sensação de pânico. Evitava os olhares. Nesse dia nem fui pro bar, pressentia que algo terrível aconteceria. Fui direto pra casa, sentindo uma coisa estranha, um espetar de espinhos na cabeça, socos no estômago que chacoalharam algo dentro de mim, algo que voltou com pressa na travessia estômago-esôfago-laringe-garganta-língua-dentes-lábios-e-chão. Lembro de bater com os joelhos na calçada, depois o queixo, o nariz, a testa e o peito que me botou novamente em contato com os seres que antes habitavam as minhas entranhas. Vomitei baratas, ratos, vespas e escorpiões. Juro.

Quando cheguei em casa abri o portão do pátio e meus olhos pousaram no corpo do nosso cachorro, estirado no jardim, com um corte do pescoço até a barriga, as tripas à mostra. O sangue ainda fresco revelava uma morte recente. Abri a porta, entrei na sala e, como suspeitava, ele já não estava mais ali. Dizem que em momentos de pânico o sangue gela, naquele instante o que gelou foi a minha mente, senti um medo tão forte que por alguns segundos não fui capaz de mover um dedo. O coração a galope. Comecei a tremer, as mãos, as pernas, o lábio inferior. Tremia tudo. Escutava seus passos lentos flexionando a madeira do assoalho da cozinha, fechei meus olhos e rezei pro Deus no qual não acredito. Minha família, dilacerada, partes de seus corpos espalhadas pela sala e quartos. Aterrorizado, fui caminhando pelo corredor até a cozinha. Imaginava seus olhos vermelhos ainda famintos por sangue e desespero. Quando entrei na peça finalmente o vi em seu último estágio de mutação: garras compridas rasgadoras de carne, molares quebradores de ossos, caninos afiados prontos pra me fazer em pedacinhos. Mas a ferocidade no seu olhar tinha algo familiar. Olhei bem no fundo de seus olhos e era como se estivesse a olhar um espelho. Sua respiração ofegante em perfeita sincronia com a minha. Ergui meu braço direito e pro meu espanto ele repetiu o gesto. Então percebi na minha mão a navalha que dissecara meu cão e na esquerda a machadinha que usei pra desmembrar minha família.

Ainda estou em casa. Daqui a pouco alguém virá me buscar. Minhas mãos estão vermelhas, já não tremem, encosto-as no rosto, fecho os olhos. Abro eles. A sala da minha casa tem as paredes verdes e eu gosto de vê-las assim, com traços vermelhos. Fecho os olhos novamente. Ouço o Réquiem de Mozart ecoando; crescente, sombrio. Celos, violinos, o silêncio estraçalhado. Quase sinto a paz, aquela paz absoluta que apenas os mortos conhecem.