machismo

Sem açúcar, por favor

Passou a garçonete, ele apertou suas coxas e levou um bofetaço bem dado, na cara. O estouro do tapa por um instante abafou o Belchior que saía pelo radinho a pilha em cima da prateleira do trailer improvisado de bar. Um velho bêbado de canha atirado numa cadeira acompanhava a música mais resmungando do que cantando: “A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é experiência com coisas reais…”

Ele tomou o tapa, baixou a cabeça, sacou uma arma, pistola, preta, apontou pra moça que não entendeu – foi em legítima defesa, ela pensou. Ele disparou, não deu estrondo, não houve sangue, apenas água. Era de brinquedo. Pediu um café bem preto. Ela chorou.

Poucas opções

Infelizmente, baseado em fatos reais.

Noite de lua nova, uma rua estreita e mal iluminada num bairro pobre de uma capital. Um casal discutindo na frente de casa. Ele, pele mulata, muito magro, de calça jeans surrada, camisa social e cabelos espetados com gel, aparenta uns trinta anos, bêbado, acusa ela de alguma coisa. Ela, de uns vinte e cinco, short jeans apertando as coxas grossas, negra, lábios carnudos, muito brilho no rosto, jura que não sabe de onde que ele tirou essa história. Depois o que se vê é ele num acesso de fúria acertando um tapa no ouvido dela que põe a mão direita no rosto e começa a chorar e gritar Ciro para de me bater, eu não fiz nada, e a família dela sai de casa e pede pelo amor de deus pra que ele pare. Mas Ciro não para. Bate nela como se batesse em bicho; soco atrás de soco, na testa, nos braços, costelas, ela se defende como pode, ou melhor, como não pode. O latido dos cães torna tudo mais caótico. Ainda que a mãe dela peça socorro, os vizinhos não têm coragem nem de olhar pela janela. Cada um com seus problemas. Agora ela era uma vagabunda e tinha mais é que apanhar porque o Ciro não aguenta mais essa vaca dentro de casa que só serve pra foder, cuidar das crianças e faxinar e ainda tem a cara de pau de meter uma guampa na cabeça do Ciro que agora chora de raiva e já não vê mais nada, em quem ele tá batendo, se é na namorada, na cunhada, na sogra, não importa, é tudo um bando de puta que só sabe correr atrás de macho, até em velório! Mas aos poucos, Ciro vai se aliviando, respira fundo, acende um cigarro, calminho, calminho. Agora ele só xinga, resmunga e diz que podem chamar a polícia que eu tô nem aí, bando de cadela.

Algumas horas depois, Ciro escuta o gatilho sendo puxado, baixa a cabeça e chorando implora a Deus por um milagre.