fotografia

Três rapazes numa praça

Se notares à direita da composição fotográfica, talvez enxergues uma raiz em formato de foguete espacial. Peço que a ignore. Ao fundo, árvores, grama. Bem ao fundo, duas lixeiras, e mais ao fundo ainda, invisível aos olhos do fotógrafo, está a cidade, derretendo-se.

Agora, foquem no centro da imagem, o rapaz de All Star encontra-se em New Orleans, num bar mui mal frequentado, cercado por trompetes, saxofones, trompetes, saxofones, e o pianista saracoteia diante da plateia ensandecida, e o baterista, em êxtase, já esqueceu da existência. À direita, o moço tocando o violão preto, por sua vez, está em uma galáxia distante, comunicando-se com os seres de outro planeta, um planeta chamado Zoráx, habitado por estes, os Zoractianos, um povo um pouquinho mais evoluído. Ninguém sacaneia ninguém em Zoráx. Eles tampouco brigam defendendo uma ideia.

Mas, voltando a este ilustre planetinha chamado Terra, por último, à esquerda, observamos o menino de boina, rabiscando. Aquela cumplicidade entre lápis, mão e papel. Ao espicharmos o pescoço por de trás de seu ombro, veremos que desenha a figura de três rapazes sentados num banco de praça, dois tocam violão enquanto o terceiro desenha três rapazes sentados num banco de praça, dois tocam violão enquanto o terceiro…

Fotografando

Para alguns trata-se apenas de um rapaz latino americano cantando sabe-se lá o quê, camiseta do Motörhead e um violão preto. Ou, pode ser também, um amontoado de moléculas que formam tecido, sangue, órgãos, carne, homo sapiens pensante que anda, fala, caga e um dia vai morrer. Ao fundo, a Redenção ou Parque Farroupilha, ensolarado, por onde passaram tropeiros, carreteiros, contrabandistas e hoje, domingo, uma mulher de camisa rosa que devido ao desfoque não passa de um borrão rosa à esquerda da fotografia, passeia com o que parece ser um cachorrinho. Na direita, mais um borrão que aparentemente trata-se de outro cão, este sem coleira, absolutamente livre.

Mas onde diabos quero chegar com esse texto? Pois eu digo, quero chegar na luz, aquele ínfimo filete de luz que envolve, abraça, aprisiona o ser em primeiro plano. Só isso.