conto

O anão latiu uma vez

Para John Fante

– A voz dele é de um agudo grave.
– Entendi. Tipo um tenor?
– Mais ou menos isso.
– Quanto mede?
– Um metro e trinta. Já trabalhou em Las Vegas, Tijuana e em Wall Street.
– O que fazia em Wall Street?
– Era arremessado.
– Hmm… Interessante. E esse?
– Este está em promoção, custa duzentos reais. Já trabalhou em circo e festas privadas. É muito discreto e atencioso.
– Muito bem. Acho que vou ficar com o primeiro, quanto custa?
– À vista, quatrocentos reais.
– Vou levá-lo.
– Certo! Tenho que colocar esta tornozeleira nele. Vem cá, rapaz…

Pôs a tornozeleira no anão.

– A tornozeleira tem um chip. E isso aqui é o rastreador, se o anão sair do raio de um quilômetro ou arrancar a tornozeleira, o rastreador liga pro seu celular e em seguida manda uma mensagem informando se ele fugiu ou arrancou ela do tornozelo. E pra cadastrar o seu celular, vamos até o balcão…

Foram até o balcão, o cliente com o dinheiro em mãos.

– Se trocares o número do celular, tem que vir aqui de novo, porque só dá pra cadastrar um número no rastreador usando este decodificador aqui. Só um segundinho… pronto!

Devolveu o celular ao cliente, entregou o rastreador, o termo de garantia e guardou o decodificador numa gaveta.

– E aqui estão suas coisas e o seu troco. Obrigado por comprar conosco e volte sempre!
– Eu sempre volto. Até mais.

O cliente deu as costas sem prestar atenção na torrente de elogios que saía da boca do atendente há poucos dias contratado.

Ao sair da loja, sentiu o sol no rosto, apertou os olhos azuis e mais uma vez olhou pra fachada da loja, Revenda de anões. Onde será que eles compram esses anões, pensou, melhor nem saber. O que será que passa pela cabeça desses anões, mesma resposta. Entraram no carro e já começou a dar instruções ao anão.

– Seguinte, eu não sei o teu nome e nem quero saber. A partir de hoje tu te chamas Wall Street. Tu só falas quando eu ordenar e se precisares muito muito falar, deves antes me pedir permissão, latindo três vezes. Quando eu te perguntar alguma coisa, tu lates uma vez pra sim e duas vezes pra não.

O anão latiu uma vez. O dono se calou. Wall Street pôs-se a observar a cidade através do vidro do carro. Os prédios passando. As pessoas passando. Postes, lojas, cachorros sem dono; cachorros encoleirados, pessoas com casa onde morar; mendigos, carros, motos, ambulância, hospital, delegacia, viatura. O anão ia sentado no banco do carona, sem cinto. O novo dono, nenhum pio. De repente surgiram árvores, pasto, vacas, cavalos, porteiras, tratores, escavadeiras.

O local era afastado da cidade, um terreno enorme onde se via uma mansão no centro, cercada por casinhas de um quarto. Muitas casinhas. Todas iguais.

 

– Escuta, Wall Street, em cada uma dessas casas vive um anão. A tua é aquela. Todos os dias, às sete da manhã, a faxineira vem trazer o café, arrumar e limpar a casa. Esteja acordado. Após tu te alimentares, começa o trabalho. Ao meio dia, cada anão volta pra sua casa e a empregada trás o desjejum. Mais tarde conversaremos a respeito das tuas funções, mas, já te adianto, tu ficarás responsável por buscar e expedir minha correspondência. Na tua casinha tem TV a cabo, um play 3 cheio de jogos, geladeira, microondas, torradeira… um monte de coisas. A empregada abastece a geladeira uma ou duas vezes por semana. Há câmeras por toda parte, menos dentro das casinhas, é claro. Duas vezes por semana, vem uma prostituta te fazer uma visita, porque ninguém é de ferro. Com ela tu podes falar à vontade. Só peço que perto de mim tu apenas lata. E então, gostaste?

A resposta está no título.