Jorge

Conheci o Jorge (lê-se ror-re) na rua, bebendo vinho barato. Ele falava alguma coisa sobre anarquia e a construção de um espaço libertário para que pudéssemos discutir ideias revolucionárias e mudar o mundo. O discurso inflamado saltava da sua boca junto com centenas de perdigotos dos quais eu discretamente me esforçava para desviar – às vezes sem êxito, diga-se de passagem. Escutei tudo com atenção e paciência de estátua e concluí que o assunto era de notável sensibilidade e enorme inutilidade. Pegamos um táxi na João Pessoa e descemos no Mercado Público. Era meio dia, verão, Porto Alegre, um sol terrível. Jorge queria comprar produtos orgânicos. Depois fomos a casa de uma amiga dele, uma hippie-capitalista que sobrevive vendendo biscoitos de maconha pelo Centro da cidade. Chama-se Flora e na época vivia entre onze pessoas num apartamento de dois quartos. Quando Flora abriu a porta pensei estar diante da Janis Joplin, recém chegada de Woodstock, a pé. Beijinhos na bochecha, abraços apertados e convites para entrar. Mal me sentei no chão da sala, que não tinha cadeiras, e um baseado aceso pousou em minhas mãos. Alguém deu play num Neil Young e aí eu tava em casa. Almofadas psicodélicas espalhadas pelo chão, apanhadores de sonho pra tudo que é lado. Flora vestia uma camiseta branca de manga cavada, sem sutiã. Peitinhos pequenos e firmes escondiam-se por trás daquele tecido. Usava uma saia longa laranja com desenhos de deuses indianos. Pus-me a imaginar se ela depilava ou não a chaninha. Tanto faz. Alguém acendeu um incenso. Dormi.

Acordei, alguém me passou um baseado. Fumei. Voltei a dormir. Acordei babando. Flora ainda com a mesma roupa, Jorge fazendo malabares com duas goiabas. Mais um baseado. Dormi. Acordei. Calculei que estava ali há três dias. Só me levantara pra ir ao banheiro. Alimentava-me deitado nas almofadas psicodélicas. Duendes traziam-me chá, pão de queijo e café em bandejas de bambu. Surgiu outro baseado. Acenderam um incenso. Dormi.

Hoje faz três meses, quinze dias e algumas horas que estou vivendo no apartamento de Flora. Jorge também está aqui. Já somos vinte e cinco habitantes. Primeiro dominaremos o prédio, fazendo dele um quartel general, Centro de Resistência. Depois passaremos aos prédios vizinhos. Sempre espalhando nossa filosofia de luta e eliminando quem conosco não concordar.

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Tem cigarro aí?

Hoje ela me viu de longe e veio em minha direção, mas eu atravessei a rua e consegui escapar. Todos os dias ela me pergunta se tenho um cigarro pra vender. Não é mole. Agora há pouco, ela passou aqui na frente de casa, caminhava com pressa e olhava para trás, como se alguém a perseguisse. Fumava um cigarro. Pensei: quantas vezes por dia essa doida tenta comprar cigarros de desconhecidos? Será que alguém vende? Duvido, decerto as pessoas dão cigarro pra ela, acho que é assim que funciona.

Assisti dois episódios de Supernatural e dormi.

Fim da tarde. Saí do escritório e comprei um avulso no primeiro boteco que encontrei.
Quando desci do ônibus, ela estava parada na esquina, roendo as unhas. Suja, andrajosa como sempre, seguia com o olhar cada carro que passava, como se deles esperasse alguma espécie de salvação. Dessa vez não fugi. Caminhei em sua direção, com o cigarro já na mão dentro do bolso. Quando me aproximei, ela arregalou seus olhos de fome e desespero e falou: moço, tem um cigarro pra me vender?

Tenho um, sim, dez reais!

No que ela prontamente puxa do bolso uma nota intacta, limpinha e retruca: tem troco pra cinquenta?

Corri pra atravessar a rua.

ANOTO NO CADERNINHO

ideia para um conto
homem vê notícias sobre David Bowie
a todo momento
David Bowie fascista
David Bowie não é fascista
constelação em homenagem a David Bowie
Lady Gaga prestará homenagem a David Bowie
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a herança de David Bowie
escute David Bowie no seu celular
Paulo Ricardo canta David Bowie
O rosto do David Bowie em todas as revistas
da banca de revistas
David Bowie no elevador
no supermercado
no consultório do psiquiatra

Tinha um louco na rua

A gente nunca sabe que tipo de monstro pode surgir enquanto distraidamente caminhamos pela rua. Uns nos pedem cigarro. Outros não.

De repente, um grito, um estrondo metálico e o homem louco de raiva, os olhos arregalados. Ele te aborda na rua e quer conversar. Mas a conversa gira em torno de um suposto casal que supostamente estava “chineleando na banda”, ou seja, ladrões. Agora o homem quer provar que é gente boa, trabalhador. Ele dá uns teco e fuma uma pedra de vez em quando, mas tá tudo de boa. Então ele entra em casa e sai com um facão, só pra te mostrar que não tá de brincadeira, que se pega eles, ah, se pega… Sorte tua não ser “eles”, mas, e se, subitamente, por motivo de um olhar, uma palavra, uma expressão, um gesto, tu passa a ser alguém relacionado a “eles”? Enquanto tu reflete sobre os limites da paranoia, o louco te segue até a esquina, só pra garantir que ninguém vai te incomodar. Ele é da paz, é pelo certo, só não curte essa gente chineleando na banda.

Aí passa um cara de bicicleta. O louco, agora sem o facão, grita “ô negão!” e parte em disparada atrás do sujeito. Este dá uma acelerada, no susto , e para umas duas esquinas à frente. O louco para, travam um diálogo incompreensível e o doido volta correndo desesperadamente, tenta roubar uma bicicleta, não consegue, para um táxi, o motorista arranca antes que ele abra a porta. Ele volta pra casa e segue gritando, esperneando, quebrando alguma coisa. Ninguém sabe a hora que ele vai parar.

[Resenha] O Sempre Lembrado – Ernani Ssó

Saudações aos três leitores. Aqui vai minha primeira resenha literária. Escolhi um livro de um autor pouco conhecido chamado Ernani Ssó, que eu gostaria muito que fosse mais lido, porque sou fascinado pelo texto do cara e ainda vou escrever um post sobre ele. Ernani é de Bom Jesus/RS, mora em Porto Alegre.

O Sempre Lembrado é um romance irônico de 1989 narrado por Libório, um funcionário de cartório chegado às belas-letras. A história alterna entre o velório do Dr. Paranhos, de quem Libório é empregado e bajulador, e as lembranças das desventuras que o narrador passou com o finado e os seus, já que Libório é muito amigo da família Paranhos, tradicional família da cidade fictícia de Urutu, “a princesinha da Serra”.

Ernani abusa e usa de clichês e lugares-comuns, expressões como “raios fúlgidos”, “fecho de ouro”, “verdes anos” e por aí vai. Palavras como “obtemperar”,  “catapultar”,  “arrebol”, “relva”, sem falar nos incontáveis advérbios, aparecem com frequência para dar aquele tom “poético” à sua crônica fúnebre. Difícil não associar Libório a José de Alencar, Olavo Bilac e outros da estirpe beletrista.

Ernani é um maestro quando o assunto é criar personagens cômicos. destaca-se aqui a dona Valdevinos, mãe (ou progenitora, nas palavras de Libório) do finado. É uma senhora faladeira e gagá, que coloca o narrador em cada situação… Outro destaque são os diálogos. Dos quatro livros que li do autor, este é o que contém os melhores. São conversas informais, num tom coloquial, cheias de gírias e palavrões, contrastando com o tom pomposo da narrativa, criando um efeito muito engraçado.

O grande achado do livro é nos mostrar que podemos usar qualquer expressão de maneira irônica, num formalismo deliberado e brincalhão, por mais piegas e abominável que ela nos pareça. No Brasil, eu não conheço nenhum outro livro que faça uma sátira à essa pomposidade com que alguns escritores, em nome da prosa poética, floreiam seus trabalhos. O Argentino Júlio Cortázar, por exemplo, faz muito disso em seu Histórias de Cronópios e de Famas. Aliás, o Ernani  é um fã assumido do Cortázar, mas isso é papo pra outro texto.

Seguro-desemprego

Acordei tarde. Cheguei no SINE às 9h40.

– É pra encaminhar o seguro-desemprego?
– Sim.
– Já acabaram as senhas de atendimento hoje.
– São quantas por dia?
– Cinquenta.
– Que horas começam a distribuir as senhas?
– Às 8h da manhã, senhor.

Acordei às 7h. Saí de casa 7h30. Cheguei no SINE às 8h20.

– Bom dia, vim pra encaminhar meu seguro-desemprego.
– Já esgotaram as senhas, senhor.

Dessa vez eu fiquei puto. Acordei com o sol nascendo, o sabiá cantando. Tomei um café bem forte e me fui à parada de ônibus pra chegar num SINE fechado.

O gari me respondeu:

– Sábado não abre, senhor.

Cubo

Nos loucos o sanatório é uma benção. Deus é um hospício de estar. Sofre-se, perde-se, treme-se. Teme. O que se há de fazer? As palavras atingem mais que as balas, a gente sabe. Três acordes de blues ferem mais que um brigadiano à paisana com o cassetete enterrado no rabo, até o cabo. O pastor enche a sunga de grana e pratica lavagem de dinheiro. Os fiéis praticam oferenda, esta que viaja de helicóptero e vá-alguém-me-dizer aonde o dinheiro do dízimo foi parar. Quero saber. Enquanto isso, Macedos, Silas e Soares enchem a cara de uísque importado e cheiram a cocaína mais pura com qual você nunca sonhou, meu caro amigo me perdoe por favor. Freud sempre cheio de explicações. Meus amigos assistiram ao filme V de Vingança e estão brincando de revolução. Deus, por aqui, não passou. Meus amigos agora estão discutindo, eles querem implantar um novo modelo de totalitarismo, mas com um traço progressista e libertário.

A loucura não possui endereço, gênero, raça e nem classe social. Mas a fome, a fome é outra coisa.

Feito latas em sardinha, os coletivos se espremem dentro dos homens lotados. Um silêncio estridente corta o vidro em mil caquinhos de sino. Vil é a cidade do prefeito. Vil é o preço dos ternos corrompidos. Vil é o pescoço que enforca na gravata um senado, um congresso, um césar e um augusto. Nas igrejas, índios sangram catequeses. Os agrotóxicos não dão conta. A escória sente fome. Os vermes fazem festa. E os poetas fazem versos.