Poema

Poeminha de amor

Tu é mais bonita que a cidade de Roma pegando fogo
Nero teria desistido da ideia de incendiá-la
Se te visse
Peladinha
Saindo do banheiro

Tu é mais bonita que a ficção científica e que a imaginação

Vê só, mais bonita que a Nona de Beethoven

E eu nunca conheci uma mulher mais bonita que a Nona de Beethoven

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Sobre por que não dou chilique

Eu entendo
Entendo os poetas cantando a natureza
E os ativistas que a defendem
Eu defendo o Português sexualmente degustável
Aquele gosto de poema na língua

Enfim
Os poetas cantam, os ativistas defendem, os intelectuais leem, estudam, afirmam, debatem, discutem, leem, afirmam, debatem, escrevem, dissertam, publicam, livros, ensaios, colunas.

Mas
No entanto
A natureza nada pode
Queda-se impotente, a língua de fora
Contra fardas e oficiais
Motosseras
Sentenças
Ordens judiciais
A violência das escavadeiras
A truculência da avenida em construção
E os soldados do Estado que te levam à delegacia

Contra uma avenida
a natureza nunca pôde.

Tempos verbais

O presente do indicativo
é uma aranha no quarto
a caminhar pelo teu rosto
que tu espantas
com um tapa
ao acordar

O infinitivo é aquele arrepio nas costas
da musa
e todas as contas
a pagar

O imperativo é uma legião romana
em formação de ataque
O dedo em riste de um coronel
Um poeta que cursa
Administração

O pretérito perfeito
É saber que aquela a quem amei
Ainda me odeia
E não consegue
me esquecer

O gerúndio é a diferença
Entre o idiota que eu sou
E o idiota que eu
era

O futuro do presente
É uma tarde interminável
Num aniversário infantil
Com patati patatá de trilha
sonora

O particípio presente
São esses vizinhos de merda
Que falam o tempo
todo
E não sabem
escutar

Um poema

Domingo, 23h46,
homem tem ataque de pânico em meio ao coito.
Tragédia monumental.
No dia seguinte está na capa de todos os jornais:
Homem tem ataque de pânico em meio ao coito.
Agora até a mãe sabia.
e as irmãs
e os vizinhos
e os amigos
e a empregada
e o filho da empregada
E o jornal da noite repete as notícias do dia:
Homem tem ataque de pânico em meio ao coito.
É traumático.
No céu, as nuvens vêm e vão.
As borboletas no estômago
transformaram-se em aranhas.