Autor: Ribeiro da Silva

"Nada a dizer fora dos livros. Só a obra interessa, o autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor do que o contista." DT tucosilvasauro@gmail.com

Enquanto uns discutem a objetificação do corpo da mulher em uma peça de publicidade, ou a apropriação cultural dos dreadlocks feita pela cantora da moda, um duende é açoitado por um troll no Reino de Pindorama.
#reflitam
Todos sabem que o Reino de Pindorama, comandado há sete gerações pela abjeta dinastia cujo nome não ousamos falar, é palco de crueldades que nós da Terra do Coito só assistimos em filmes do Oliver Stone e olhe lá. Os homens livres de Pindorama, gordos e boçais, narram seus estupros como quem exibe um troféu. Mas, como diria o grande historiador Flatus Antonius, o que acontece em Pindorama, morre em Pindorama. Ou seja, ninguém liga.
Minto, uns fingem.
Vez que outra, uma ricaça da Terra do Coito viaja a Pindorama e adota um pigmeu. Chamam de filantropia. Tudo na clandestinidade, pois os habitantes são proibidos de deixar a ilha. Tais ações, não se enganem, têm menos a ver com o pigmeu e mais a ver com o ego da dondoca.
A última revolta em Pindorama foi sangrenta. A multidão enlouquecida invadiu o parlamento. Degolaram um por um, deputados e senadores inúteis. Após três dias de resistência, o rei aceitou o diálogo. Um troll adulto e saudável é capaz de esmagar três piigmeus com um golpe de punho.
Da papa sanguinolenta fez-se ração para alimentar o povo.
A popularidade do monarca cresce dia após dia, segundo os jornais.
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EU ME LEMBRO

Eu me lembro de um certo nervosismo, e me lembro de ter escrito a mão na minha agenda a data em que marcamos nos encontrar.

Eu me lembro de ir até o mercado e comprar vinho branco e subir no terraço e você perceber que eu tinha medo de altura.

Eu me lembro do nosso primeiro beijo, a tua cabeça encostou na minha mão, depois nossas pernas se encontraram e enfim nos beijamos.

Eu me lembro de assitir a primeira temporada de True Detective pela segunda vez só porque eu queria que tu assistisse.

Eu me lembro da nossa primeira selfie (odeio), na praça da alfândega, quando tu comprou um celular novinho e almoçamos juntos.

Eu me lembro do dia em que tu conheceu a Sara e ela disse que o teu perfil era bonito e tu achou que ela falava do teu perfil no Facebook quando na verdade ela falava de uma foto que eu tirei de ti em Montevidéu.

Eu me lembro de Montevidéu, do ônibus, da feira, da cerveza, do Arildo, do hotel, do Mercado del Puerto, de Colonia del Sacramento, da minha gripe, de como tu conseguiu trocar as passagens na rodoviária e ainda comprou um chazinho.

Eu me lembro de chegar bêbado na tua casa altas horas da madrugada pedindo pouso e no dia seguinte lembrar de Disritmia do Martinho da Vila:

Eu quero me esconder debaixo
Dessa sua saia prá fugir do mundo
Pretendo também me embrenhar
No emaranhado desses seus cabelos

Preciso transfundir seu sangue
Pro meu coração, que é tão vagabundo

Eu me lembro que a ideia de morar contigo surgiu tão naturalmente, como se fosse uma necessidade.

Eu me lembro de toda a merda que passamos nesse processo de mudança e reforma e aluguel e lâmpada e torneira e registro e cartório e chuveiro e piso e azulejo e janela e ventilador.

Eu sei que acho muito simplório quando alguém diz que ama outra pessoa. As minhas formas de expressar amor são diferentes, alguns gestos, olhares e isto aí, cada um dos parágrafos acima são uma forma diferente de eu dizer que te amo.

DANIEL E O VIAGRA

Daniel era um cara legal. Agitado, esquisito, mas um cara legal. Funcionário público. Chegado numa cocaína. Certa feita, o Marino falou pra ele que se mulher tomasse viagra dava um tesão violento e ela se atracava a foder com o primeiro espécime masculino que lhe aparecesse. Eu jamais acreditaria numa só palavra que o Marino dissesse, mas Daniel era um cara legal, agitado, esquisito, acreditava nas pessoas. Convidou a Amandinha e a Rebeca pra irem na casa dele tomar “ecstasy”. Meia hora, quarenta e cinco minutos, uma hora, música psicodélica, papo vai, papo vem, uma hora e meia e nada de tesão nas meninas. Enquanto isso, nosso amigo Daniel vai e volta do banheirou toda hora. Lá pelas tantas, as meninas resolvem segui-lo e o pegam em flagrante delito descascando uma fogosa punheta. Saia justa pra carai.

Fabi

Lembrei da Fabi, do escritório. Sempre ia ao banheiro com uma bolsinha. Tenho certeza que levava lenço umedecido ali, pra manter o cu limpinho. Quando ela entrava no corredor, já se escutava o tec tec dos tamancos, cediam-lhe alguns centímetros de estatura e uma bundinha empinada. A Fabi chegava segunda-feira com uma monstruosa necessidade de narrar todos os detalhes do seu ma-ra-vi-lho-so final de semana no Rio, acompanhada dum carioca bonitão, que é sobrinho dum bicheiro, e ela o chamava de amor, e ele tinha mordomo, mansão, carro, moto, barco, lancha, sauna, piscina, champanhe francesa, beleza, carisma, pegada…

Três semanas depois, o cara sumiu.

A Fabi autointitulava-se “A Cara”. A mulher exagerava no antidepressivo. Autoestima demais. Eu sabia que ela dava pro dono do escritório porque o negão da segurança me contou. Dizia que ia ler um livro chamado Por que os homens gostam das mulheres poderosas, ou algo assim. Deus nos socorra.

Da série: Crônicas do desemprego

Gente, tenho razões para crer que existe uma conspiração envolvendo a Rede Record, a prefeitura de Porto Alegre e Ele, o presidente-interino-golpista-vampiro-neoliberal-fascista da Republica Federativa dos Estados Unidos do Brasil. Michel. O objetivo deste conluio é, claramente, o extermínio das pessoas de baixa renda, para fins de controle populacional.

Dia desses, numa tarde fria e ensolarada, dirigi meu corpo cansado e maltrapilho ao SINE do Centro de Porto Alegre (a pé, porque a passagem tá cara), na esperança de um emprego. Cheguei e peguei a ficha de atendimento. Cento e trinta e três desempregados na minha frente. Mesmo com o lugar apinhado de gente, consegui uma cadeira pra sentar.

A expressão das pessoas nesses lugares é triste. Um misto de apreensão e velório.

Na parede atrás dos atendentes, a palavra EMPREENDEDORISMO em letras enormes. Puta que o pariu! Tá bom, eu sei que a Filosofia Contemporânea dos RH’s valoriza o funcionário empreendedor, pró-ativo, com iniciativa e vontade de crescer com a empresa. Vejamos alguns slogans de RH’s que eu catei por aí:

“O Caminho para a realização dos seus sonhos!”
“Faça parte dessa equipe!”
“Venha construir seu futuro conosco!”

Me recuso a comentar sobre essas coisas aí em cima.

Pois bem, decidi desviar a vista da parede e olhei pra televisão. Péssima ideia. Balanço Geral, crimes e notícias policiais, pra gente perder mais um pouquinho a fé na humanidade. Como se não bastasse essa tragédia chamada vida, o cristão vai procurar emprego e se depara com uma televisão passando uma sequência de desgraças sem fim. Lembram do que eu falei sobre extermínio da população de baixa renda? Temer entra com o desemprego, a Record com o Balanço Geral, e a Prefeitura com o empreendedorismo. É ou não é um convite ao suicídio?

Enfim, depois de não sei quantas notícias de assassinato, espancamento, escola depredada, anões assaltantes, sertanejo universitário, a volta do Guns n’ Roses e 12,7 olhadas distraídas para o empreendedorismo na parede, chamaram meu número. A atendente, visivelmente cansada mas simpática, me informou que não tinha nenhuma vaga para o meu perfil.

FIM

ELA É

Empoderada. Sustentável. Vegana. Negra, índia, árvore, palestina, asiática, sapiopanbissexual, trans, oprimidx, sofridx, não se cala. Contra a cultura do estupro. Quebradora de paradigmas. Desconstruidora de conceitos. Fundadora do espaço de fala. Defensora da sororidade. Protagonista no filme da luta contra a opressão machista binária capitalista neoliberal branca elitista cis hétero pmdb psdb bolsonaro olavo de carvalho belo monte coca cola ritalina friboi samarco padrões de beleza impostos pela sociedade bush obama hitler fascista neopentecostal conservadora retrógrada de direita.

 

Repita infinitamente o mantra:

 

Eu sororizo

tu sororizas

elx sororiza

nós sororizamos

vós sororizais

elxs sororizam

FILHO AUSENTE

Por volta de 1920, imigrantes judeus da Europa e do Oriente Médio formaram a primeira comunidade judaica de Porto Alegre, no bairro Bom Fim.

Corta pra 2016.

– O que Hitler matou foi pouco!

Era um velho alquebrado, cansado, ranzinza. Falava sozinho.
Dava bom dia só pra quem fosse de confiança. Os judeus que frequentavam a sinagoga ao lado da sua casa não eram de confiança. Os que não a frequentavam também.

– Na ditadura era diferente. Tínhamos segurança. Hoje em dia, não se pode mais confiar em ninguém. Eu saio de casa, só vejo puta, judeu e maconheiro. Mas que merda. Sem falar nos comunistas, esse bando de filhos da puta!

Toca o telefone.

– Alô.
– Seguinte, cara, a gente tá com teu filho. Faz o que a gente manda, se não eu vou meter uma bala na cabeça dele!

Ao fundo, imitando uma voz infantil, alguém grita: papai, papai, socorro!

Ele desliga o telefone.

– Porra, eu nunca tive um filho.

E chora feito uma criança.

Jorge

Conheci o Jorge (lê-se ror-re) na rua, bebendo vinho barato. Ele falava alguma coisa sobre anarquia e a construção de um espaço libertário para que pudéssemos discutir ideias revolucionárias e mudar o mundo. O discurso inflamado saltava da sua boca junto com centenas de perdigotos dos quais eu discretamente me esforçava para desviar – às vezes sem êxito, diga-se de passagem. Escutei tudo com atenção e paciência de estátua e concluí que o assunto era de notável sensibilidade e enorme inutilidade. Pegamos um táxi na João Pessoa e descemos no Mercado Público. Era meio dia, verão, Porto Alegre, um sol terrível. Jorge queria comprar produtos orgânicos. Depois fomos a casa de uma amiga dele, uma hippie-capitalista que sobrevive vendendo biscoitos de maconha pelo Centro da cidade. Chama-se Flora e na época vivia entre onze pessoas num apartamento de dois quartos. Quando Flora abriu a porta pensei estar diante da Janis Joplin, recém chegada de Woodstock, a pé. Beijinhos na bochecha, abraços apertados e convites para entrar. Mal me sentei no chão da sala, que não tinha cadeiras, e um baseado aceso pousou em minhas mãos. Alguém deu play num Neil Young e aí eu tava em casa. Almofadas psicodélicas espalhadas pelo chão, apanhadores de sonho pra tudo que é lado. Flora vestia uma camiseta branca de manga cavada, sem sutiã. Peitinhos pequenos e firmes escondiam-se por trás daquele tecido. Usava uma saia longa laranja com desenhos de deuses indianos. Pus-me a imaginar se ela depilava ou não a chaninha. Tanto faz. Alguém acendeu um incenso. Dormi.

Acordei, alguém me passou um baseado. Fumei. Voltei a dormir. Acordei babando. Flora ainda com a mesma roupa, Jorge fazendo malabares com duas goiabas. Mais um baseado. Dormi. Acordei. Calculei que estava ali há três dias. Só me levantara pra ir ao banheiro. Alimentava-me deitado nas almofadas psicodélicas. Duendes traziam-me chá, pão de queijo e café em bandejas de bambu. Surgiu outro baseado. Acenderam um incenso. Dormi.

Hoje faz três meses, quinze dias e algumas horas que estou vivendo no apartamento de Flora. Jorge também está aqui. Já somos vinte e cinco habitantes. Primeiro dominaremos o prédio, fazendo dele um quartel general, Centro de Resistência. Depois passaremos aos prédios vizinhos. Sempre espalhando nossa filosofia de luta e eliminando quem conosco não concordar.