Mês: dezembro 2016

Enquanto uns discutem a objetificação do corpo da mulher em uma peça de publicidade, ou a apropriação cultural dos dreadlocks feita pela cantora da moda, um duende é açoitado por um troll no Reino de Pindorama.
#reflitam
Todos sabem que o Reino de Pindorama, comandado há sete gerações pela abjeta dinastia cujo nome não ousamos falar, é palco de crueldades que nós da Terra do Coito só assistimos em filmes do Oliver Stone e olhe lá. Os homens livres de Pindorama, gordos e boçais, narram seus estupros como quem exibe um troféu. Mas, como diria o grande historiador Flatus Antonius, o que acontece em Pindorama, morre em Pindorama. Ou seja, ninguém liga.
Minto, uns fingem.
Vez que outra, uma ricaça da Terra do Coito viaja a Pindorama e adota um pigmeu. Chamam de filantropia. Tudo na clandestinidade, pois os habitantes são proibidos de deixar a ilha. Tais ações, não se enganem, têm menos a ver com o pigmeu e mais a ver com o ego da dondoca.
A última revolta em Pindorama foi sangrenta. A multidão enlouquecida invadiu o parlamento. Degolaram um por um, deputados e senadores inúteis. Após três dias de resistência, o rei aceitou o diálogo. Um troll adulto e saudável é capaz de esmagar três piigmeus com um golpe de punho.
Da papa sanguinolenta fez-se ração para alimentar o povo.
A popularidade do monarca cresce dia após dia, segundo os jornais.
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EU ME LEMBRO

Eu me lembro de um certo nervosismo, e me lembro de ter escrito a mão na minha agenda a data em que marcamos nos encontrar.

Eu me lembro de ir até o mercado e comprar vinho branco e subir no terraço e você perceber que eu tinha medo de altura.

Eu me lembro do nosso primeiro beijo, a tua cabeça encostou na minha mão, depois nossas pernas se encontraram e enfim nos beijamos.

Eu me lembro de assitir a primeira temporada de True Detective pela segunda vez só porque eu queria que tu assistisse.

Eu me lembro da nossa primeira selfie (odeio), na praça da alfândega, quando tu comprou um celular novinho e almoçamos juntos.

Eu me lembro do dia em que tu conheceu a Sara e ela disse que o teu perfil era bonito e tu achou que ela falava do teu perfil no Facebook quando na verdade ela falava de uma foto que eu tirei de ti em Montevidéu.

Eu me lembro de Montevidéu, do ônibus, da feira, da cerveza, do Arildo, do hotel, do Mercado del Puerto, de Colonia del Sacramento, da minha gripe, de como tu conseguiu trocar as passagens na rodoviária e ainda comprou um chazinho.

Eu me lembro de chegar bêbado na tua casa altas horas da madrugada pedindo pouso e no dia seguinte lembrar de Disritmia do Martinho da Vila:

Eu quero me esconder debaixo
Dessa sua saia prá fugir do mundo
Pretendo também me embrenhar
No emaranhado desses seus cabelos

Preciso transfundir seu sangue
Pro meu coração, que é tão vagabundo

Eu me lembro que a ideia de morar contigo surgiu tão naturalmente, como se fosse uma necessidade.

Eu me lembro de toda a merda que passamos nesse processo de mudança e reforma e aluguel e lâmpada e torneira e registro e cartório e chuveiro e piso e azulejo e janela e ventilador.

Eu sei que acho muito simplório quando alguém diz que ama outra pessoa. As minhas formas de expressar amor são diferentes, alguns gestos, olhares e isto aí, cada um dos parágrafos acima são uma forma diferente de eu dizer que te amo.

DANIEL E O VIAGRA

Daniel era um cara legal. Agitado, esquisito, mas um cara legal. Funcionário público. Chegado numa cocaína. Certa feita, o Marino falou pra ele que se mulher tomasse viagra dava um tesão violento e ela se atracava a foder com o primeiro espécime masculino que lhe aparecesse. Eu jamais acreditaria numa só palavra que o Marino dissesse, mas Daniel era um cara legal, agitado, esquisito, acreditava nas pessoas. Convidou a Amandinha e a Rebeca pra irem na casa dele tomar “ecstasy”. Meia hora, quarenta e cinco minutos, uma hora, música psicodélica, papo vai, papo vem, uma hora e meia e nada de tesão nas meninas. Enquanto isso, nosso amigo Daniel vai e volta do banheirou toda hora. Lá pelas tantas, as meninas resolvem segui-lo e o pegam em flagrante delito descascando uma fogosa punheta. Saia justa pra carai.