FILHO AUSENTE

Por volta de 1920, imigrantes judeus da Europa e do Oriente Médio formaram a primeira comunidade judaica de Porto Alegre, no bairro Bom Fim.

Corta pra 2016.

– O que Hitler matou foi pouco!

Era um velho alquebrado, cansado, ranzinza. Falava sozinho.
Dava bom dia só pra quem fosse de confiança. Os judeus que frequentavam a sinagoga ao lado da sua casa não eram de confiança. Os que não a frequentavam também.

– Na ditadura era diferente. Tínhamos segurança. Hoje em dia, não se pode mais confiar em ninguém. Eu saio de casa, só vejo puta, judeu e maconheiro. Mas que merda. Sem falar nos comunistas, esse bando de filhos da puta!

Toca o telefone.

– Alô.
– Seguinte, cara, a gente tá com teu filho. Faz o que a gente manda, se não eu vou meter uma bala na cabeça dele!

Ao fundo, imitando uma voz infantil, alguém grita: papai, papai, socorro!

Ele desliga o telefone.

– Porra, eu nunca tive um filho.

E chora feito uma criança.

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