Mês: março 2016

Jorge

Conheci o Jorge (lê-se ror-re) na rua, bebendo vinho barato. Ele falava alguma coisa sobre anarquia e a construção de um espaço libertário para que pudéssemos discutir ideias revolucionárias e mudar o mundo. O discurso inflamado saltava da sua boca junto com centenas de perdigotos dos quais eu discretamente me esforçava para desviar – às vezes sem êxito, diga-se de passagem. Escutei tudo com atenção e paciência de estátua e concluí que o assunto era de notável sensibilidade e enorme inutilidade. Pegamos um táxi na João Pessoa e descemos no Mercado Público. Era meio dia, verão, Porto Alegre, um sol terrível. Jorge queria comprar produtos orgânicos. Depois fomos a casa de uma amiga dele, uma hippie-capitalista que sobrevive vendendo biscoitos de maconha pelo Centro da cidade. Chama-se Flora e na época vivia entre onze pessoas num apartamento de dois quartos. Quando Flora abriu a porta pensei estar diante da Janis Joplin, recém chegada de Woodstock, a pé. Beijinhos na bochecha, abraços apertados e convites para entrar. Mal me sentei no chão da sala, que não tinha cadeiras, e um baseado aceso pousou em minhas mãos. Alguém deu play num Neil Young e aí eu tava em casa. Almofadas psicodélicas espalhadas pelo chão, apanhadores de sonho pra tudo que é lado. Flora vestia uma camiseta branca de manga cavada, sem sutiã. Peitinhos pequenos e firmes escondiam-se por trás daquele tecido. Usava uma saia longa laranja com desenhos de deuses indianos. Pus-me a imaginar se ela depilava ou não a chaninha. Tanto faz. Alguém acendeu um incenso. Dormi.

Acordei, alguém me passou um baseado. Fumei. Voltei a dormir. Acordei babando. Flora ainda com a mesma roupa, Jorge fazendo malabares com duas goiabas. Mais um baseado. Dormi. Acordei. Calculei que estava ali há três dias. Só me levantara pra ir ao banheiro. Alimentava-me deitado nas almofadas psicodélicas. Duendes traziam-me chá, pão de queijo e café em bandejas de bambu. Surgiu outro baseado. Acenderam um incenso. Dormi.

Hoje faz três meses, quinze dias e algumas horas que estou vivendo no apartamento de Flora. Jorge também está aqui. Já somos vinte e cinco habitantes. Primeiro dominaremos o prédio, fazendo dele um quartel general, Centro de Resistência. Depois passaremos aos prédios vizinhos. Sempre espalhando nossa filosofia de luta e eliminando quem conosco não concordar.

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Tem cigarro aí?

Hoje ela me viu de longe e veio em minha direção, mas eu atravessei a rua e consegui escapar. Todos os dias ela me pergunta se tenho um cigarro pra vender. Não é mole. Agora há pouco, ela passou aqui na frente de casa, caminhava com pressa e olhava para trás, como se alguém a perseguisse. Fumava um cigarro. Pensei: quantas vezes por dia essa doida tenta comprar cigarros de desconhecidos? Será que alguém vende? Duvido, decerto as pessoas dão cigarro pra ela, acho que é assim que funciona.

Assisti dois episódios de Supernatural e dormi.

Fim da tarde. Saí do escritório e comprei um avulso no primeiro boteco que encontrei.
Quando desci do ônibus, ela estava parada na esquina, roendo as unhas. Suja, andrajosa como sempre, seguia com o olhar cada carro que passava, como se deles esperasse alguma espécie de salvação. Dessa vez não fugi. Caminhei em sua direção, com o cigarro já na mão dentro do bolso. Quando me aproximei, ela arregalou seus olhos de fome e desespero e falou: moço, tem um cigarro pra me vender?

Tenho um, sim, dez reais!

No que ela prontamente puxa do bolso uma nota intacta, limpinha e retruca: tem troco pra cinquenta?

Corri pra atravessar a rua.