Mês: dezembro 2015

Tinha um louco na rua

A gente nunca sabe que tipo de monstro pode surgir enquanto distraidamente caminhamos pela rua. Uns nos pedem cigarro. Outros não.

De repente, um grito, um estrondo metálico e o homem louco de raiva, os olhos arregalados. Ele te aborda na rua e quer conversar. Mas a conversa gira em torno de um suposto casal que supostamente estava “chineleando na banda”, ou seja, ladrões. Agora o homem quer provar que é gente boa, trabalhador. Ele dá uns teco e fuma uma pedra de vez em quando, mas tá tudo de boa. Então ele entra em casa e sai com um facão, só pra te mostrar que não tá de brincadeira, que se pega eles, ah, se pega… Sorte tua não ser “eles”, mas, e se, subitamente, por motivo de um olhar, uma palavra, uma expressão, um gesto, tu passa a ser alguém relacionado a “eles”? Enquanto tu reflete sobre os limites da paranoia, o louco te segue até a esquina, só pra garantir que ninguém vai te incomodar. Ele é da paz, é pelo certo, só não curte essa gente chineleando na banda.

Aí passa um cara de bicicleta. O louco, agora sem o facão, grita “ô negão!” e parte em disparada atrás do sujeito. Este dá uma acelerada, no susto , e para umas duas esquinas à frente. O louco para, travam um diálogo incompreensível e o doido volta correndo desesperadamente, tenta roubar uma bicicleta, não consegue, para um táxi, o motorista arranca antes que ele abra a porta. Ele volta pra casa e segue gritando, esperneando, quebrando alguma coisa. Ninguém sabe a hora que ele vai parar.

[Resenha] O Sempre Lembrado – Ernani Ssó

Saudações aos três leitores. Aqui vai minha primeira resenha literária. Escolhi um livro de um autor pouco conhecido chamado Ernani Ssó, que eu gostaria muito que fosse mais lido, porque sou fascinado pelo texto do cara e ainda vou escrever um post sobre ele. Ernani é de Bom Jesus/RS, mora em Porto Alegre.

O Sempre Lembrado é um romance irônico de 1989 narrado por Libório, um funcionário de cartório chegado às belas-letras. A história alterna entre o velório do Dr. Paranhos, de quem Libório é empregado e bajulador, e as lembranças das desventuras que o narrador passou com o finado e os seus, já que Libório é muito amigo da família Paranhos, tradicional família da cidade fictícia de Urutu, “a princesinha da Serra”.

Ernani abusa e usa de clichês e lugares-comuns, expressões como “raios fúlgidos”, “fecho de ouro”, “verdes anos” e por aí vai. Palavras como “obtemperar”,  “catapultar”,  “arrebol”, “relva”, sem falar nos incontáveis advérbios, aparecem com frequência para dar aquele tom “poético” à sua crônica fúnebre. Difícil não associar Libório a José de Alencar, Olavo Bilac e outros da estirpe beletrista.

Ernani é um maestro quando o assunto é criar personagens cômicos. destaca-se aqui a dona Valdevinos, mãe (ou progenitora, nas palavras de Libório) do finado. É uma senhora faladeira e gagá, que coloca o narrador em cada situação… Outro destaque são os diálogos. Dos quatro livros que li do autor, este é o que contém os melhores. São conversas informais, num tom coloquial, cheias de gírias e palavrões, contrastando com o tom pomposo da narrativa, criando um efeito muito engraçado.

O grande achado do livro é nos mostrar que podemos usar qualquer expressão de maneira irônica, num formalismo deliberado e brincalhão, por mais piegas e abominável que ela nos pareça. No Brasil, eu não conheço nenhum outro livro que faça uma sátira à essa pomposidade com que alguns escritores, em nome da prosa poética, floreiam seus trabalhos. O Argentino Júlio Cortázar, por exemplo, faz muito disso em seu Histórias de Cronópios e de Famas. Aliás, o Ernani  é um fã assumido do Cortázar, mas isso é papo pra outro texto.