Mês: novembro 2015

Seguro-desemprego

Acordei tarde. Cheguei no SINE às 9h40.

– É pra encaminhar o seguro-desemprego?
– Sim.
– Já acabaram as senhas de atendimento hoje.
– São quantas por dia?
– Cinquenta.
– Que horas começam a distribuir as senhas?
– Às 8h da manhã, senhor.

Acordei às 7h. Saí de casa 7h30. Cheguei no SINE às 8h20.

– Bom dia, vim pra encaminhar meu seguro-desemprego.
– Já esgotaram as senhas, senhor.

Dessa vez eu fiquei puto. Acordei com o sol nascendo, o sabiá cantando. Tomei um café bem forte e me fui à parada de ônibus pra chegar num SINE fechado.

O gari me respondeu:

– Sábado não abre, senhor.

Vizinhos

No início eles se viam apenas pela janela. Ele num prédio, ela no outro. Começou assim, ele havia se mudado há sete dias, foi fumar na janela e viu ela no prédio do outro lado da rua. Bonita. Ele olhou, olhou, olhou. Ela retribuiu o olhar. Sorriram, acenaram.
Começaram a se comunicar por cartazes:
– Que tu faz que passa o dia inteiro em casa? – escrevia ela.
– Sou fotógrago e trabalho de noite. Tiro foto de espetáculos.
– Que tipo de espetáculo?
– Música.
– Eu adoro música. Faxino a casa ouvindo música.
– E teu marido faz o quê?
– Trabalha num banco. E a tua esposa?
– Moro sozinho.
Marcaram um cafezinho na cafeteria da esquina. Ele tomou banho, passou perfume. Estava nervoso. Ela botou uma roupa boa. Nervosa.
Só falaram besteira. Se adoraram.
Encontravam-se quase todos os dias na cafeteria. Daí começaram os almoços, mates, filminhos. Ora na casa dum, ora na casa do outro. Não perdiam a Sessão da Tarde.

A arte de roubar livros

A arte de roubar livros

Vocês não sabem, aliás, vocês nem me conhecem, já já vou me apresentar direitinho, mas primeiro eu queria dizer que vocês não sabem que a maioria dos livros que ocupam a minha estante foram roubados. Sou um grande ladrão de livros. Isso vem de família. Meu pai, um comunista convicto, roubava na livraria do Globo. Eis a tática do velho:

Entrava na livraria trazendo um livro na mão, passeava sem pressa nenhuma, escolhia um título e saía com os dois livros juntos, na maior cara de pau. Nunca o pegaram.

Agora eu vou me apresentar, meu nome é José e tenho 27 anos. Trabalho editando fotos pra um fotógrafo. Ele faz books. Vaidade dá dinheiro.

Mudam-se os tempos, mudam-se as estratégias. A minha tática de roubar livros é diferente, eu entro na livraria, compro uma revista baratinha, assim eles me dão uma sacola da livraria. Então eu passeio, sem a mínima pressa, escolho um livro e levo pro espaço de leitura onde ficam uns sofás e as câmeras não pegam. Aí começo o processo de descolar o adesivo magnético. Feito isso, coloco o livro na sacola e tchau.

A tecnologia dificultou muito o trabalho do ladrão de livros, leva-se mais tempo. O importante é manter a calma, se mostrar nervosismo, os seguranças pregam o olho.

Não esperem que eu me justifique.

Tempo médio para se roubar um livro: 20 minutos.

Código de ética:

Jamais roubar em sebos e pequenas livrarias.