Mês: janeiro 2015

A HISTÓRIA JAMAIS CONTADA OU SOBRE COMO JESUS REALMENTE TRANSFORMOU ÁGUA EM VINHO

Pois vos digo, meus senhores e minhas senhoras que aqui presente estão neste exato momento e neste exato lugar: Dan Brown, aquele dos filmes com o Tom Renquis, Dan Brown, repito, gostaria de ter escrito esta narrativa, mas eu me adiantei e escrevi primeiro.

Lá vai.

Silencioso como uma tumba, vinha Jesus cambaleando pelas veredas de Nazaré. Estivera num puteiro, ele e os doze, e agora, após despedir-se de Judas, o último sobrevivente, Jesus ergue um copo vazio a uma senhora que por ali passa, e implorando, a mão tremendo, os olhos lacrimejantes, diz: dai-me água, senhora, por Deus!, dai-me água. A tal senhora, diante àquele belo rapaz de longos cabelos castanhos, pintado por da Vinci, fazendo carinha de pidão, deu-lhe água, uma garrafa cheia. Jesus agradece fingindo comoção, despede-se e dá meia volta. Com a boca da garrafa na altura do peito, mão direita pairando o gargalo, Jesus olha prum lado, Jesus olha pro outro… e dá uma tremidinha na munheca. A água vira vinho.

E vinha Jesus cambaleando pelas veredas de Nazaré, cantando mais ou menos assim:

Maaaadalena, madalena
Você é meu bem querer (meu bem querê Ê Ê)
Eu vou cantar pra todo mundo
Vou cantar pra todo mundo
Que eu só quero é vocêêê

Conto de natal

Véspera da véspera de natal. Discussão intensa, inflamada. Raiva salivando pelos poros. Mãe e filho, aos berros. Os rostos deformados pelo ódio. Na casa ao lado, todos bem quietinhos, tentando escutar. E a netinha, com os cachinhos entre os dedos, aos quatro anos, os olhinhos assustados, assistindo sem entender o bate boca cujo motivo era absolutamente fútil. É que conviver, vez que outra, torna-se um suplício. O desfecho, súbito: deu as costas à mãe, entrou no quarto, respirou fundo e, enquanto ela gritava algo que ele não queria ouvir, vup!, toda a força na porta, que bateu mas não fechou. Que estranho, ele pensou. Em seguida, da sala, veio o grito da mãe; choro e desespero. Era a pequena, estirada no chão. Traumatismo craniano.

Até hoje ele não sabe o que fazer com a culpa. Pra dormir, só com a boletinha.