Mês: julho 2014

Um poema

Domingo, 23h46,
homem tem ataque de pânico em meio ao coito.
Tragédia monumental.
No dia seguinte está na capa de todos os jornais:
Homem tem ataque de pânico em meio ao coito.
Agora até a mãe sabia.
e as irmãs
e os vizinhos
e os amigos
e a empregada
e o filho da empregada
E o jornal da noite repete as notícias do dia:
Homem tem ataque de pânico em meio ao coito.
É traumático.
No céu, as nuvens vêm e vão.
As borboletas no estômago
transformaram-se em aranhas.

Requiem para um monstro

Ninguém sabe dizer como e quando aquilo apareceu. A princípio ninguém o notou, até que começou a crescer. E quando cresceu o suficiente para ser notado, foi trazido pra dentro de casa e colocado na sala, em frente à televisão.

E por que agora todos estão mortos e seus corpos dilacerados, é difícil explicar. Mas todos quem? Daqui a pouco vocês ficam sabendo. Quando penso em todas estas coisas, alguns pontos negros da minha memória iluminam-se e em seguida voltam à escuridão. Mas vamos à narrativa do que me lembro, passo a contar a partir da data, também imprecisa, em que minha mulher encontrou-o entre os arbustos no jardim. Ele tinha aparência excêntrica e inofensiva, a princípio, a não ser por uma pequena cauda que saída de sua traseira, com uma lâmina afiada na ponta, de onde eventualmente pingava um líquido marrom pegajoso – líquido esse que, é importante dizer, só eu percebia. A mulher da casa disse que aquilo era muito lindo e ficaria perfeito na sala. As crianças agitaram-se, fizeram perguntas: de onde veio, quem trouxe, o papai noel, a fada do dente, o coelhinho, extraterrestres, duendes, bruxas, cegonhas, uma lista enorme de possíveis origens e procedências do objeto que surgira misteriosamente no quintal. Outra coisa inexplicável foi o que em seguida acometeu a minha esposa, feito um raio: uma mania de limpeza e organização. Num ímpeto, tínhamos de alterar imediatamente a disposição dos móveis, varrer, encerar, limpar, polir, comprar um lustre a ser instalado no centro da sala e plantar violetas no jardim. Passada uma semana desde a chegada dele, todas arrumações e transformações e limpezas na casa já haviam sido concluídas. As paredes internas foram pintadas de verde claro e as externas de verde escuro. E o quadro com o retrato de Mozart, que antes ficava no nosso quarto, mudou de lugar, foi parar na sala, pendurado na parede, acima do objeto desconhecido.

Há anos nada de extraordinário acontecia, a vida afundara numa monotonia típica dos casais, que vez que outra era quebrada por aniversários, formaturas, casamentos, viagens em temporada de férias… eventos que a mim já eram rotina, mas em minha esposa desencadeavam uma espécie de ascensão instantânea da vaidade. Oportunidades pra ela comprar um vestido, sapato, brincos, mudar o cabelo, as unhas, experimentar uma maquiagem diferente e eventualmente receber elogios – o que eu já não fazia, naturalmente.

Não tardou os vizinhos souberam da novidade e começaram a visitar-nos com frequência, para admirar a coisa do jardim. A vida social agitou-se. Nessas visitas comentava-se muito sobre a vida alheia. Assim, sabíamos que o filho dos Souza não estava fazendo intercâmbio na Nova Zelândia coisa nenhuma, mas internado numa clínica de recuperação devido a problemas com cocaína. Noutra semana chegava a informação de que os problemas eram com crack. E quando os Souza pararam de sair de casa e nem sequer abriam as janelas, circulavam boatos de que o filho enforcara-se com o cadarço dos tênis.

Odeio boatos, fofocas e intrigas, quero distância disso, mas as visitas e fofocas tornaram-se diárias. Chimarrão e fofoca, fofoca e chimarrão. Eu me fechava no quarto e ficava escutando música clássica bem alto, é o tipo de coisa que me acalma. Ouvia Mozart, meu preferido, também Bach, Bizet, Chopin, Stravinsky. Um dia, eu estava de olhos fechados, sorvendo a Marcha Slava do Tchaikowsky, outro compositor que me fascina, quando no momento em que os tambores começam a rufar e eu me empolgo e levanto e começo andar pra lá e pra cá e a balançar os braços de um jeito estranho que não consigo explicar com palavras, a minha esposa, acompanhada de uma comitiva de vizinhos curiosos e fofoqueiros, adentra o quarto mostrando o cômodo e os móveis e fazendo infinitas observações e falando dos planos para o futuro e viagens e vejam só como somos lindos e felizes, oh! Parei de voltar pra casa depois do trabalho. Eu ia pro bar e só retornava tarde da noite, a pé, bêbado, amaldiçoando o mundo. O álcool, essa coisa eufórica e maldita, é capaz de arruinar um ser humano, e a lei permite, vejam só que bonito. Tornei-me pai e marido ausente, uma pessoa fria, amarga e rancorosa. Não cumprimentava os vizinhos e ainda lhes fechava a cara ao cruzar com eles na rua. Quando minha esposa perguntava o que eu tinha, por que aquela brusca mudança em meu comportamento, eu a ignorava e sentia prazer em vê-la atordoada. O mesmo eu fazia com meus filhos. Que coisa boa é apreciar o sofrimento de quem a gente ama.

No trabalho, não me interessava pelas conversas alheias, parecia um alienígena na companhia dos outros. Enquanto tagarelavam a respeito do tempo, futebol, política… eu matinha o olhar fixo em alguma coisa qualquer e punha-me introspectivo a pensar em atrocidades. Passei a almoçar sozinho. Agora eu tinha nojo dos outros, afinal, eles são o inferno, conforme escreveu aquele filósofo mais feio que a feiura.

Odeio filosofia.

Um dia, subitamente, algo desabou sobre o meu inconsciente e todo aquele ódio transformou-se em medo. Sonhei com o objeto na sala pulsando, ganhando vida, criando olhos, dentes, pernas, garras e caminhando sorrateiro pelos corredores, apenas o rubro dos seus olhos cintilando na penumbra da madrugada, abrindo uma a uma as portas até encontrar-nos em sono profundo. Acordei suando e corri até a sala a fim de olhar a coisa, e ela crescia. Juro. Voltei correndo pra cama e de lá não consegui sair naquela manhã de inverno. Ninguém questionou. Cheguei depois do almoço no trabalho e inventei que minha filha ficara doente. Ninguém questionou. Qualquer um que me olhasse causava uma inexplicável sensação de pânico. Evitava os olhares. Nesse dia nem fui pro bar, pressentia que algo terrível aconteceria. Fui direto pra casa, sentindo uma coisa estranha, um espetar de espinhos na cabeça, socos no estômago que chacoalharam algo dentro de mim, algo que voltou com pressa na travessia estômago-esôfago-laringe-garganta-língua-dentes-lábios-e-chão. Lembro de bater com os joelhos na calçada, depois o queixo, o nariz, a testa e o peito que me botou novamente em contato com os seres que antes habitavam as minhas entranhas. Vomitei baratas, ratos, vespas e escorpiões. Juro.

Quando cheguei em casa abri o portão do pátio e meus olhos pousaram no corpo do nosso cachorro, estirado no jardim, com um corte do pescoço até a barriga, as tripas à mostra. O sangue ainda fresco revelava uma morte recente. Abri a porta, entrei na sala e, como suspeitava, ele já não estava mais ali. Dizem que em momentos de pânico o sangue gela, naquele instante o que gelou foi a minha mente, senti um medo tão forte que por alguns segundos não fui capaz de mover um dedo. O coração a galope. Comecei a tremer, as mãos, as pernas, o lábio inferior. Tremia tudo. Escutava seus passos lentos flexionando a madeira do assoalho da cozinha, fechei meus olhos e rezei pro Deus no qual não acredito. Minha família, dilacerada, partes de seus corpos espalhadas pela sala e quartos. Aterrorizado, fui caminhando pelo corredor até a cozinha. Imaginava seus olhos vermelhos ainda famintos por sangue e desespero. Quando entrei na peça finalmente o vi em seu último estágio de mutação: garras compridas rasgadoras de carne, molares quebradores de ossos, caninos afiados prontos pra me fazer em pedacinhos. Mas a ferocidade no seu olhar tinha algo familiar. Olhei bem no fundo de seus olhos e era como se estivesse a olhar um espelho. Sua respiração ofegante em perfeita sincronia com a minha. Ergui meu braço direito e pro meu espanto ele repetiu o gesto. Então percebi na minha mão a navalha que dissecara meu cão e na esquerda a machadinha que usei pra desmembrar minha família.

Ainda estou em casa. Daqui a pouco alguém virá me buscar. Minhas mãos estão vermelhas, já não tremem, encosto-as no rosto, fecho os olhos. Abro eles. A sala da minha casa tem as paredes verdes e eu gosto de vê-las assim, com traços vermelhos. Fecho os olhos novamente. Ouço o Réquiem de Mozart ecoando; crescente, sombrio. Celos, violinos, o silêncio estraçalhado. Quase sinto a paz, aquela paz absoluta que apenas os mortos conhecem.

Bug da Matrix – parte um

Texto escrito em parceria com o grande amigo, escritor, mago, compositor, vidente, artista plástico e cineasta Yuri Sebastian Ferrari.

– Eu tô bugado.
– Ah é?
– Sim, tô meio estranho.
– Capaz?
– Acho que é o bug da Matrix, sabe?
– Tá brincando, de novo?
– Tá ouvindo?

rrrrrrrrrrrrrr

– Sim, a Matrix tá bugada.
– Eu tô.
– Às vezes me sinto assim, então fumo mais um e espremo umas laranjas…
– Ah é, e passa?
– Claro, rapaz, a última vez que fiquei assim foi depois de ver aquele
do Glauber Rocha que fala dos cangaceiros…
– A maioria é de cangaceiros.
– É, eu vi e o negócio me bugou. Sei do que tu tá falando, também fiquei assim, outro dia, depois de comer o xis calabresa do Claudio Lanches.

Trocou de canal. Na televisão passava uma luta de MMA feminino; duas mulheres musculosas trocando socos, chutes e caneladas. Maria mata leão Vs Zélia punho de pedra.

– Sei lá, cara, não comi nada da rua e não vi nenhum filme de lóqui.
Tô bugado de um jeito diferente. Tu comia uma mulher parruda dessas?
– Se pá. Como assim bugado diferente?
– Ah véi, não sei explicar… hey, cara, tô sentindo uma coisa estranha aqui na barriga…

Levantou a camiseta, a barriga foi inchando, crescendo, inchando, ficando roxa e explodiu. Ploft. Dali de dentro saiu uma
criaturinha estranha, bípede de aproximadamente um metro e trinta, pele verde-musgo, olhos vermelhos faiscantes, careca e com um bigodinho ruivo. Falou:

– Oi, eu sou o Boris, mas pode me chamar de Bug da Matrix.

Continua…

Sem açúcar, por favor

Passou a garçonete, ele apertou suas coxas e levou um bofetaço bem dado, na cara. O estouro do tapa por um instante abafou o Belchior que saía pelo radinho a pilha em cima da prateleira do trailer improvisado de bar. Um velho bêbado de canha atirado numa cadeira acompanhava a música mais resmungando do que cantando: “A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é experiência com coisas reais…”

Ele tomou o tapa, baixou a cabeça, sacou uma arma, pistola, preta, apontou pra moça que não entendeu – foi em legítima defesa, ela pensou. Ele disparou, não deu estrondo, não houve sangue, apenas água. Era de brinquedo. Pediu um café bem preto. Ela chorou.

Poucas opções

Infelizmente, baseado em fatos reais.

Noite de lua nova, uma rua estreita e mal iluminada num bairro pobre de uma capital. Um casal discutindo na frente de casa. Ele, pele mulata, muito magro, de calça jeans surrada, camisa social e cabelos espetados com gel, aparenta uns trinta anos, bêbado, acusa ela de alguma coisa. Ela, de uns vinte e cinco, short jeans apertando as coxas grossas, negra, lábios carnudos, muito brilho no rosto, jura que não sabe de onde que ele tirou essa história. Depois o que se vê é ele num acesso de fúria acertando um tapa no ouvido dela que põe a mão direita no rosto e começa a chorar e gritar Ciro para de me bater, eu não fiz nada, e a família dela sai de casa e pede pelo amor de deus pra que ele pare. Mas Ciro não para. Bate nela como se batesse em bicho; soco atrás de soco, na testa, nos braços, costelas, ela se defende como pode, ou melhor, como não pode. O latido dos cães torna tudo mais caótico. Ainda que a mãe dela peça socorro, os vizinhos não têm coragem nem de olhar pela janela. Cada um com seus problemas. Agora ela era uma vagabunda e tinha mais é que apanhar porque o Ciro não aguenta mais essa vaca dentro de casa que só serve pra foder, cuidar das crianças e faxinar e ainda tem a cara de pau de meter uma guampa na cabeça do Ciro que agora chora de raiva e já não vê mais nada, em quem ele tá batendo, se é na namorada, na cunhada, na sogra, não importa, é tudo um bando de puta que só sabe correr atrás de macho, até em velório! Mas aos poucos, Ciro vai se aliviando, respira fundo, acende um cigarro, calminho, calminho. Agora ele só xinga, resmunga e diz que podem chamar a polícia que eu tô nem aí, bando de cadela.

Algumas horas depois, Ciro escuta o gatilho sendo puxado, baixa a cabeça e chorando implora a Deus por um milagre.

Luto

– Alô.
– Oi… minha mãe morreu, transa comigo?
– Que é isso, João? Tu tá bêbado.
– Não tô bêbado. Minha mãe morreu e eu quero transar.
– Deixa de ser ridículo e vai dormir.

Ele encosta o telefone no gancho e procura o próximo nome na lista, Valéria.

Breve conto insólito sobre Jesus

E vinha Jesus andando pelas veredas de Nazaré, suando litros, com aquela longa cabeleira que da Vinci lhe deu, o sol queimava, os galos cantavam, quando avistou uma multidão, ergueu os braços aos céus e disse:

– Irmãos que vêm do norte, irmãos que vêm do sul, irmãos que vêm do leste e irmãos que vêm do oeste, em nome de Deus vos digo, não se acadelem!

O povo exaltou Jesus e agradeceu ao bondoso Deus por enviar seu filho para salvá-los. Um cego surgiu na multidão e cambaleou até Jesus, ajoelhou-se e implorou pela cura, Jesus agachou-se e sussurrou ao seu ouvido: pega aqui essas duas moedas de ouro, levanta, grita que estás enxergando e some-te, infeliz! O cego obedeceu. É um milagre, as pessoas comentavam.

Desse dia em diante, em Nazaré, nenhum homem, mulher ou criança voltou a acadelar-se.

Ô glória.

Visions of sweet…

“…And these visions of Johanna are now all that remain.”

Bob Dylan – Visions of Johanna

Ela veio leve como uma pluma tornando-me lírico feito um novelo – um coitado apaixonado de olhar perdido no horizonte da minha, só minha saudade. Veja o pobre Horácio, cujos desfechos desconheço. Teus dedos gélidos, gestos cálidos. Como pode um desejo de ti suprir tanto instinto meu? Já não vejo seios, bundas nem ruivas. Meu mundo deu voltas, parou, girou e se perdeu. Ô tristeza.
Por anos versei versos cegos-surdos-mudos pra ela que nunca esteve aqui, que não descobriu meu ponto fraco. Ponto este que se revelou a ti de imediato. Agora eu fico escutando aquela música do Dylan, devido as quatro últimas letras. Me pego com os dedos acariciando a ferida no meu braço. Por que mesmo tu dá um pulo quando beijo teu pescoço?
O paraíso tem tudo a ver com a gente. O inferno mais ainda. Morder é atividade profana aos pudorados, pobres coitados, grupinho no qual a gente não se encaixa. Olha o gordinho ali no caixa olhando como se fossemos os bêbados mais bêbados do mundo. Mas que se foda! Esse mundo de papel e caneta é meu e teu, só nosso. A gente costura, mente, fuma, assiste a missa e passa a tarde bebendo da chuva. Da nossa saliva fiz um rio que me inunda. Juro que não sei o que isso quer dizer!
E lá vai, vai o trem, a gente perdeu. Ele segue sem saber o que é amar. Amar nunca foi um mar nem nada. Amar era e continua sendo coisa de novela. Uma incógnita. E que barbaridade infame todo aquele desdobre sobre o assalto e que, na verdade… né?
Mas me desculpa se vou pulando de assunto a cada frase – feito amarelinha -, mas tu bem sabes: é o meu jeito de comunicar as coisas dedilhantes, tudo que fervilha, salta e dança nesta minha confusão mental. E quer saber o que é dedilhante? Você! Você que me nocauteou com tudo na metade do terceiro assalto, soco, beijo, mordida, minhas pernas bambas e o chão. Você, que riu alto pra valer. Você.

Uma breve história sobre a rotina

Segunda-feira, quatorze de julho de 2014, seis e meia da manhã.

 

Acordo cansado. Há meses que sofro de insônia porque o antidepressivo desregulou o meu sono. O remédio também diminui a minha libido e aumenta o apetite, por isso estou dez quilos mais gordo – acrescenta-se aí a vida sedentária que levo. Estou com sobrepeso e aumentando cada vez mais, rumo à obesidade e ao infinito e além – eu sempre quis escrever isso. Minhas pernas e meu peito estão doendo, pois ontem decidi começar a fazer exercícios físicos, agachamento e apoio. Três séries de dez. Como dói. Hoje, depois do expediente, farei uma caminhada de uma hora na orla do Guaíba. Não vá pensar que resolvi empreender essa cruzada porque me preocupo com a estética do meu corpo, estou pouco me fodendo pra aparência, o problema é essa indisposição, essa moleza no corpo, e o pequeno (por enquanto) incômodo que tem sido abaixar-me para amarrar os tênis, a barriga atrapalha. Que diabo. Sorte que possuo braços compridos, pratiquei muita natação na adolescência, o que me rendeu no colégio os apelidos de Braço, Macaco, Gorila, Perna-curta, Mentira e outros que esqueci. Podia ter investido numa promissora carreira de boxeador. Mas não fiz.

Ultimamente, a umidade tem sido outro incômodo aqui em casa. As roupas não secam e as paredes suam. Viva o inverno Portoalegrense! Olho pela janela do meu quarto e vejo a lua cheia em pleno dia.. Mais abaixo, a rua, coberta pela neblina. À tarde vai fazer calor, diz a voz que sai da televisão.

Beber água, cagar, tomar banho, escovar os dentes, vestir-se e ganhar a rua. Ganho a rua, que já não é mais tão deserta assim, adultos encaminham-se ao trabalho e crianças ao colégio, com suas mochilas de super-heróis e princesas americanas – colonialismo filha da puta. Faço parte do primeiro grupo, rumo à labuta, à guerra, trabalhadores do mundo, uni-vos! Não. Na casa à frente, apenas as crianças saem, sob gritos e insultos selvagens da avó: anda Tainá! Vamo Yago! Cala a boca Yuri! A vó é uma negra colossalmente gorda que deve ter muita dificuldade para amarrar os sapatos – deve ser por isso que sempre a vejo de chinelos. Nessa casa, os adultos não saem pra trabalhar, porque trabalham ali mesmo, vendendo droga. O pico da clientela é à madrugada. Eu fico escorado na janela, insone, observando a rua, e vejo eles chegarem e pararem em frente à casa, uns de moto, dão uma buzinadinha e esperam; outros a pé, assobiam, batem palmas, gritam, mandam mensagem ou ligam do celular, em seguida aparece um negãozinho, sempre de boné, discretamente entrega algo pro sujeito que lhe entrega outro algo, discretamente, e cada um toma o seu rumo.

O meu ônibus, segundo a tabela de horários, vem de dez em dez minutos, porém, na prática, vem de meia em meia hora e às vezes demora mais ainda. Dá nos nervos.

Após três cigarros e intermináveis cinquenta minutos de espera, surge o para-choque do ônibus na esquina. Lotado. Hehe. Que merda. Entro sem dar bom dia. Todos os passageiros possuem aquele olhar cadavérico de quem vive nessa rotina de trabalho-casa-trabalho há sabe-se lá quantos anos. O tédio estampado nos rostos. Na parada seguinte, entram mais uns oito passageiros e parece que o ônibus vai explodir, mas não explode não. O cobrador, sensato, avisa ao motorista que não cabe mais ninguém ali dentro. O motorista, teimoso, em vez de passar reto pela próxima parada, onde se encontram cerca de quinze cidadãos assalariados que precisam pegar essa condução para chegar pontualmente em seus indesejáveis empregos subalternos, pára e abre as portas do inferno. Do fundo do ônibus uma senhora obesa grita com uma voz estridente: não cabe mais ninguém nessa merda! tu tá doido, hein?! O motorista finge que não é com ele. Cabe sim. Ele abre as portas traseiras e manda o pessoal entrar por atrás. As pessoas vão empurrando-se, acotovelando-se, esmagando-se. Um velho vomita no meio do corredor, impregnando o ar. Sinto uma enorme vontade de morrer, mas me control. Ademais, não há nenhum objeto cortante ou arma de fogo ao alcance. Depois dessa, o motorista birrento, ao que parece, conformou-se com o fato de que a coisa parece uma lata de atum. Chegamos ao Terminal Triângulo na Assis Brasil. Os passageiros vão saindo, saindo e saindo sem parar, parece que estão sendo vomitados pela porta do ônibus. Desço e já me encaminho à fila do T1. O Terminal Triângulo é chamado assim por possuir o formato da figura geométrica que lhe da nome. Há filas pra tudo que é lado, algumas fazem curvas, dão voltas, cruzam com outras. Não sei como as pessoas se organizam nessa suruba, mas se organizam. O T1, comparado ao ônibus que peguei antes, é um paraíso, raramente atrasa, a fila dificilmente é enorme e quase sempre consigo um lugar pra sentar. Hoje não foi diferente. Aqui há dois grupos de pessoas: os trabalhadores e os estudantes da PUCRS, para diferenciá-los basta observar os olhares. Os trabalhadores possuem aquele mesmo olhar bovino de enfado e resignação do ônibus anterior. Já os estudantes, estes ainda conservam um brilho no olhar, vida, não conhecem a realidade da rotina maçante de ter de aturar por nove horas todo o santo dia o mesmo chefe, os mesmos colegas, a mesma comida do mesmo restaurante com os mesmos garçons e o mesmo café da mesma cafeteira e as mesmas piadas e os mesmos comentários a respeito do tempo, futebol, política, férias, viagem, alguém me dá um tiro pelo amor de Deus e depois chegar em casa, o mesmo cônjuge, filhos, janta, Jornal Nacional, Novela, um episódio de uma série idiota qualquer com uma dublagem porca e enfim o merecido descanso, pra no dia seguinte fazer tudo de novo e de novo e de novo, até, por fim, morrer, o tal merecido descanso. É como viver num eterno looping. Por isso tem gente que enlouquece. Por isso tem gente que leva décadas pra se formar na faculdade, vive numa  adolescência sem fim, sendo sustentado pelos pais. Não se trata apenas de medo da responsabilidade de levar uma vida adulta, é o medo de virar mais um zumbi de olhar vazio e inexpressivo caminhando sem motivo em direção a lugar nenhum. Quarenta minutos depois, desço em frente ao meu trabalho. Trabalhei, voltei pra casa, jantei, assisti Manhattam do Woody Allen e dormi no meio do filme.

No dia seguinte, foi quase tudo igual.